sexta-feira, 24 de abril de 2009

O homem do (e)terno cinza



Eu sei um segredo daquele cara de terno cinza e gravata preta, sentado na primeira fila para atendimento no Banco. Vocês nem imaginam. É um segredo bobo, eu sei. Mas como os segredos sempre mexem com a curiosidade, resolvi provocar um pouquinho. Então, aquele cara de terno cinza é um homem sério, mora sozinho num apartamento alugado e come farinha láctea antes de dormir. Se vocês olharem bem e repararem com atenção, há alguns farelinhos no paletó. Bem ali, perto da gola.
O nome dele é Fernando. O sobrenome eu desconheço. Mas sei de outras coisas. Quando criança, por exemplo, ele morava perto da casa da minha avó, mas não saía muito à rua como os outros garotos. Sempre magro, sempre tossindo muito, aparecia de vez em quando, mas a mãe dele logo o chamava: “vem pra dentro, senão constipa!”
Ah é. A mãe dele... que figura tétrica! Usava umas meias grossas até a barra da saia jeans e surrada, mesmo nos mais quentes dias de verão. Além disso, trazia nos ombros um ponche ou um xale cinza, cheirando a coisa guardada. Seus cabelos eram envoltos em rolinhos pequenos, multicoloridos e cheios de caspa. Ela não ria jamais.
O menino cresceu ouvindo sua mãe dizer que ele ia morrer de alguma doença braba se ficasse brincando com os outros moleques. Por isso, ele se resguardava em torno dela, tomando todos os tipos de remédios que se possa imaginar. Esse é o segredo dele. Não espalhem, por favor, porque detesto fofoca: Ele é um hipocondríaco radical. Mesmo sem nunca ter transado, mesmo sem nunca ter usado drogas injetáveis ou recebido sangue, acordou um dia jurando que estava com AIDS. Fernando sempre acreditava que poderia estar muito doente.
E temendo a iminência da morte, ele nunca tira o terno cinza. Fernando quer ser enterrado com ele e fica esperando a morte chegar a qualquer momento. Hoje, ele está ali, na fila do banco, para depositar o seu seguro de vida (coisa que faz desde os 16 anos). Observem que ele está sempre tomando um comprimido. São coquetéis de antiácidos e antigripais para evitar qualquer problema maior.
Fernando vai ser atendido agora. Se não me engano, vai limpar o suor das mãos depois que apertar a da atendente. Viram? Não falei! Ele faz isso desde novo. É para evitar que seja contaminado por alguma bactéria transmitida pelo toque dos outros. Agora ele vai sair. Segue seu caminho solitário, Fernando.
O que ninguém poderia imaginar, nem o narrador das linhas acima, é que depois que saiu do Banco, depois de buscar o resultado mensal do exame de sangue no laboratório, depois ainda de evitar qualquer contato com outra pessoa, depois também de tomar uma injeção de vitaminas A, D e E, Fernando foi atropelado por um ciclista e arrebentou a cabeça no meio fio, bem no centro da cidade. Morreu feito um passarinho, depois de chocar-se contra uma árvore no meio do temporal.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Sobre um quarto de século


Eu nasci em 1982 e, como muitos da minha geração, acreditava que o mundo fosse acabar no ano 2000. Morreria aos 18 anos, como um poeta romântico do século XIX. Achava que o fim dos tempos chegaria como naquelas previsões: mil passará, mas dois mil não chegará, que sempre ouvi dos mais velhos. Imaginava que o mundo desaparecesse de forma simples: boooom! E pronto. Sem aquele tom de catástrofe presente no imaginário popular.


O ano 2000 chegou e o mundo não acabou. Pelo contrário, outro mundo se abriu para mim: fui contratado como repórter deste então semanário. Essa história eu já contei. Mas quero registrar minha eterna gratidão e orgulho de ter entrado no mundo da escrita por meio do A Notícia, que completa na próxima segunda, 13, vinte e cinco anos.


Um quarto de século parece pouco. Mas é muito tempo se pensarmos em quantas pessoas passaram pela equipe de redação, quantas edições circularam, quantas fotografias foram tiradas, quantas pautas foram pensadas, quantas entrevistas feitas, quantas notícias alegres, quantas notas tristes... São vinte e cinco anos de uma vivência intensa junto da região do Médio Piracicaba, sendo fiel a princípios morais e ao tão respeitado compromisso com o leitor.


É preciso comemorar e festejar a data, com o orgulho dos campeões e o suspiro de quem sabe bem os caminhos que percorreu até chegar aonde chegou. Além disso é importante frisar que mais da metade dos 45 anos da história do município estão registrados nas páginas do jornal. Arquivos de ouro para a preservação da memória de nossa cidade.


Ninguém discorda que o jornal A Notícia é um dos mais importantes veículos jornalísticos da região. O reconhecimento veio com a certificação ISO e com os inúmeros prêmios e homenagens recebidos ao longo desses anos, sem falar nos seus recordes de vendagem nas bancas e, principalmente, pela capacidade de fomentar a opinião do povo, provocando debates e reflexões nas manhãs de terças e sextas-feiras.


Ainda estamos nos anos 2000. O mundo não acabou, apesar da crise batendo na porta e na aorta de muita gente. Eu não estou mais na redação, apesar de ocupar este espaço como colaborador. Mas o jornal continua agradando a uns, desagradando a outros tantos. Sempre cumprindo o seu papel fundamental: informar com precisão, apresentando edições, tanto bonitas de se ver quanto interessantes de se ler.


Parabéns a todos aqueles que escreveram e que ainda escrevem as linhas desta história. Parabéns aos leitores, aos colaboradores, aos jornaleiros. Parabéns aos parceiros, aos fotógrafos, aos chargistas, aos diagramadores, aos impressores, aos revisores. E sobretudo, parabéns ao Márcio Passos, que iniciou essa empreitada, matando leões diários para vencer as barreiras; parabéns também à Maria Cecília, sua filha, que dá continuidade a essa grandiosa obra.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Haicais ordinários

I
Tudo passa
como errante
nuvem de fumaça

II
Beijo tua boca
Sem beijar
teu travesseiro

III
Olha por que
a redonda bolha
é meio molhada?

IV
O Poema Sujo
é mais limpo
que a sua bondade

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A casa de Oliver T.


Não era uma casa apenas. Tinha, sobretudo, um ar de mistério a morada de Oliver T., engenheiro aposentado, sem filhos e sem amores. Ali ele escondia seus prazeres, seus pequenos delitos, seus hábitos pouco convencionais. Não que Oliver T. fosse um homem que levantasse suspeitas. Pelo contrário: era querido pela vizinhança e simpático com todos. Mas tinha um costume incomum. Ele, homem solitário aos 67 anos, gostava de caixinhas. Colecionava-as e, dentro das maiores, guardava outras menores e, dentro dessas, colocava outras menores ainda, até chegar às minúsculas caixas de botão de camisa. Era um vício. Oliver T. entrava nas lojas, mas não comprava nada. Ele apenas observava os objetos de sua paixão calorosa. Poderia passar horas diante das vitrines observando as caixas: redondas, coloridas, quadradas, com texturas, ranhuras, caixas e mais caixas. Quando perguntado se queria alguma coisa, Oliver perguntava se as caixas estavam à venda. “Se comprar uma camisa, pode levar a caixa”, foi o que disse a vendedora. “Eu compro. Quero as caixas”. Em casa, o engenheiro cuidava delas como se cuidasse de celebridades. Tinha armários especiais montados só para acondicioná-las. No quarto do fundo, que também parecia uma caixa dentro de casa, ele as ordenava, seguindo um método de arquivistica. As caixas tinham nomes como tem os animais de estimação. Oliver passava dias dentro do quarto observando suas preciosidades. Dava risadas, rodopios com alguma na mão. Tinha verdadeira estima por elas. Não importava se eram de papelão ou de madeira. Amava todas, mais do que amava a se mesmo. Um dia decidiu fazer uma obra na casa. Ele mesmo desenhou o novo projeto. A idéia era construir uma espécie de labirinto entre os quartos, de maneira que a porta de um se abrisse dentro do outro. Os quartos também tinham uma disposição diferenciada: os maiores continham os menores. O último era inversamente proporcional ao primeiro, sendo pouco maior que um cubículo secreto. Obras a todo vapor e Oliver T. salivava diante de seu estranho projeto. Dormia e sonhava com os labirintos borgianos que apareciam à sua frente. Eram caminhos apenas de ida. Ninguém poderia voltar de lá. Mas ele, apenas ele, sabia o caminho de volta. E não precisava espalhar migalhas de pão ou desenrolar um novelo de linha. Sabia a estrutura do lugar de cor e se realizava com isso. Acordou feliz naquela manhã em que sua obra ficaria pronta. Sua casa se transformou num imenso corredor de doze cômodos fechados, sem janela, com apenas uma porta de entrada. Os quartos grandes da casa do engenheiro iam diminuindo de tamanho à medida que se abriam as portas e se mergulhava naquelas paredes de concreto e cheirando a tinta fresca. O último era o mais secreto. O menor, o mais quente. Nele, Oliver não cabia em pé. Não podia abrir os braços, tinha que se acomodar quase de cócoras, como se habitasse uma casa de bonecos. Ali, nesse local pouco confortável e convencional, é que ele se sentia melhor. Sentia-se protegido, como se tivesse regressado ao útero materno, como se nada no mundo pudesse atingi-lo. E foi assim que Oliver T. sumiu. Ninguém na rua o via mais. Ninguém na vizinhança o ouviu assobiar. Dentro de casa, de seus cômodos, Oliver foi morar para sempre encaixotado, tão recluso como se seus segredos nunca pudessem ser revelados, como se a vida não passasse de um objeto guardado dentro de uma caixinha de músicas.

No Papini

Na quarta-feira, 1º de abril, estive na escola Estadual Antônio Papini, a convite das professoras Lucília e Bel, para falar aos alunos sobre Literatura. Por cerca de 30 minutos, falei um pouco do meu interesse pela leitura, meu processo de criação textual, além de como criei o hábito de escrever. Atentas, as crianças com idades entre 8 e 11 anos, me ouviram com um interesse surpreendente.
Fiquei feliz com a empolgação deles com um concurso literário promovido pela escola, além de ter apreciado bons poemas escritos por eles. Esse é o resultado de um trabalho digno de aplausos de todas as professoras e da equipe pedagógica da escola que incentivam as crianças a gostar de ler, além de criar seus próprios textos. Com leitores que mergulham no universo literário por prazer, dá para acreditar que o Brasil ainda pode ser o país do futuro!

No Papini II

Ainda durante a visita, fui bombardeado com perguntas das mais diversas:
- "Qual foi primeiro livro que você leu?"
- "Quantas crônicas você já escreveu?"
- "Escritor ganha muito dinheiro?"
- "Qual o seu poema preferido?"

Essas perguntas me deixaram muito feliz porque percebi que os meninos e meninas têm uma vontade grande de ler cada vez mais. Além disso, as crianças mostraram que é possível aprender a gostar de ler sem a obrigação chata de fichas de leitura ou coisa do tipo. Elas estão lendo porque gostam e porque querem. Estão de parabéns!

sexta-feira, 27 de março de 2009

Dez coisas para se fazer quando estiver à toa

1) Ler 20 poemas de amor e uma canção desesperada, de Pablo Neruda

2) Ouvir os Beatles tocando Something

3) Assistir ao Fabuloso Destino de Amelie Poulain

4) Esfregar o dedão do pé num tapete felpudo

5) Ler qualquer texto do Drummond

6) Ouvir Chico cantando Trocando em Miúdos

7) Assistir ao Chaves e não sentir culpa

8) Jogar fora os papéis que estão sobrando na gaveta

9) Rever fotos antigas

10) Sexo também é bom negócio. O melhor da vida é isso e ócio, como cantou o Baleiro!