terça-feira, 8 de junho de 2010

Memória II



A memória é o essencial, como já disse Jorge Luís Borges. E o monlevadense tem isso como um bandeira. A lembrança dos prédios da cidade alta, da praça, do comercio e de toda aquela vida que havia no entorno da usina, ainda está viva e corre nas veias da cidade, apesar de terem se passado muitos anos.
O memorialismo é tão pulsante, que já ouvi muita gente falando “a minha Monlevade não existe mais”. E isso me incomoda um pouco porque o saudosismo em excesso pode ser prejudicial. Lembrar o passado com tanta avidez é, sim, uma forma de não pensar o futuro. A impressão é a de que o monlevadense ama tanto aquela cidade perdida, que não consegue amar a atual, não consegue fazer o presente progredir. Fica preso ao passado, sem querer buscar o futuro.
Mas entendo. Depois que a cidade alta acabou, criou-se uma lacuna. Um espaço vazio que jamais será preenchido ficou aberto e a memória vem para consolar o fim daquele período. No entanto, é preciso refletir: se aquele bairro não tivesse acabado, estaria de pé até hoje? Será que as faculdades, as rádios, os centros de discussão e fomento ainda seriam na Praça do Mercado? O hipermercado seria construído ali, próximo ao Armazém do Geo? Seria mesmo possível?
Não, certamente, não seria. Mas como os monlevadenses (os que nasceram entre as décadas de 40 e 60) perderam o espaço de sua infância, perderam as referencias de onde estudaram, de onde namoraram de onde trabalharam, surgem as memórias como um amparo de (re) construção de todas essas vidas.
Se a cidade alta continuasse viva, é bem provável que ela estivesse esvaziada, carente de atenção e de investimentos, como hoje está todo o centro industrial. O desenvolvimento não respeita a memória quando faltam políticas de preservação e uma população consciente de seu papel no cuidado com o seu patrimônio.
O que a memória amou fica para sempre. E, por isso, o passado permanece vivo por meio de tantas saudades e lembranças. O fim da cidade alta é uma ferida na alma monlevadense que nunca vai ser fechada. E ela é tão forte, quanto a imagem de um aleijado sentindo dores no braço que já perdeu.