terça-feira, 24 de agosto de 2010

Algumas questões sobre o memorialismo

Depois de 12 semanas apontando a importância e a grandiosidade de nossa memória, nossos temas tão caros, ficam ainda algumas questões: qual olhar podemos lançar sobre a nossa cidade se a memória não tem um espaço definido? Quando os costumes e tradições ficam na área de um saudosismo válido, mas não suficiente? O que fazer para que João Monlevade avance na economia, no crescimento e na geração de emprego e renda, mas não se esqueça de legitimar suas raízes? O que fazer para que essas não sejam apenas evidenciadas por um sentimento ufanista e longínquo?
Como disse em outros textos, fala-se muito em memória, mas não há meios suficientes para legitimá-la, para edificá-la e transformá-la em algo concreto e justificado com a força de suas entranhas.
Vejamos. O lactário, as casas de madeira, a escadaria, os boieiros, os shows da rádio cultura, a praça central, as barbearias, os bares, as vivências os apitos da Usina e todo o resto daquela época, compõem uma saudade, representam uma lacuna que ainda vaga pelas trilhas da lembrança, que ainda grita, agita e se agiganta em ecos. Mas, para quem ouvir? E quando as vozes se calarem?
Também já escrevi aqui que é preciso reunir, catalogar, registrar, e transformar essas informações em ações para consultas e efetivá-las em referência da nossa identidade. Tomemos o exemplo do Centro de Cultura e Memória da ArcelorMittal. O hotel Cassino foi transformado e otimizado como museu que guarda o acervo de tudo o que diz respeito à unidade local da gigante mundial do aço. Ali estão reunidos documentos históricos, recortes de jornais, boletins informativos, fotografias, livros, registros de atas, entre outras pegadas que contam a história da empresa no município ao longo de 75 anos.
Por que não pensar em um centro de cultura e memória municipal? Um museu da imagem e do som? Onde pudessem ser registradas narrativas de nossa cidade, onde pudessem estar reunidas, fotografias, recortes, textos, objetos e demais objetos que possam contar a nossa história? Podemos avançar para o futuro quando conhecemos bem o nosso passado, que ainda respira forte e com bastante freqüência, na alma de João Monlevade.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Memória XII – Os pioneiros

João Monlevade é uma cidade que tem o pioneirismo em suas veias. Essa vocação para a inovação e para o avanço surgiu há quase duzentos anos, com a chegada do francês Jean Antoine Felix Dissandes de Monlevade, por volta de 1820. Não deve ter sido fácil para ele cruzar o Atlântico numa viagem penosa por cerca de 3 meses.
Além das dificuldades da travessia, imagino os desafios vividos por Jean de Monlevade nos primeiros tempos no Brasil: Diferenças de clima? De cultura, costumes? De linguagem? Nada disso foi entrave para ele, que vislumbrou o futuro edificando uma fábrica no quintal do seu Solar que se tornou referência para toda Minas Gerais.
Ok. Essa história não é segredo para ninguém, mesmo não sendo tão difundida em nosso município. O que chama a atenção é o que aproxima Jean Felix Dissandes de Monlevade com outro estrangeiro, o luxemburguês Louis Jaques Ensch. Ele chegou aqui quando a cidade estava engatinhando e veio com a missão de fechar a usina, pois essa não correspondia às expectativas. No entanto, o engenheiro vislumbrou possibilidades e arriscou na tentativa de reerguer a fábrica, saldando dividas e iniciando uma produção de qualidade.
Além disso, sob a batuta do maestro Ensch, começou a verdadeira transformação local, com a construção das vilas operárias, do centro velho, do Hospital Margarida, do lactário e de tudo o que deu origem ao que a cidade representa hoje.
Os dois pioneiros, Jean “Ensch” e Louis “Monlevade”, são pioneiros de tudo nesta cidade e suas memórias devem ser perpetuadas. Eles estão sepultados no Cemitério dos Escravos, que fica em frente ao Social Clube. Tamanho era o desejo de permanecerem aqui foi que ambos preferiram ser enterrados na terra que edificaram.
É preciso olhar para esses homens, para essas vivências. Homenageá-los, estuda-los. Preservar suas biografias. Até mesmo, para que sirvam de exemplo para que outros inovadores possam surgir e também fazer história. O momento é agora. Estamos diante de um processo de crescimento, com o aumento da capacidade de produção da Usina (a mesma que deu origem a tudo) e o caminho está aberto para novas conquistas. Só não sabe quem não quer.

Memória XI - Os arcontes



Um dos maiores nomes da filosofia contemporânea, o argelino Jacques Derrida, em seu livro “Mal de Arquivo”, teoriza sobre a função dos guardiões da memória. Segundo o pensador, esses, que são chamados arcontes não eram responsáveis apenas pela segurança física do depósito e do suporte. Cabiam-lhes também o direito e a competência hermenêuticas. Tinham o poder de interpretar os arquivos. Depositados sob a guarda desses arcontes, estes documentos diziam, de fato, a lei: eles evocavam a lei e convocavam a lei. Para serem assim guardados, na jurisdição desse dizer a lei eram necessários ao mesmo tempo um guardião e uma localização. Mesmo em sua guarda ou em sua tradição hermenêutica, os arquivos não podiam prescindir de suporte nem de residência.[1]
Em Monlevade também há pessoas que se preocupam em guardar os documentos de memória em suas residências, como se guardassem um tesouro, além de interpreta-los. Cito dois, cujos trabalhos conheço de perto: O escritor e professor Geraldo Eustáquio Ferreira, (Dadinho) e o escritor e fotógrafo Francisco de Paula Santos (Barcelona). Tanto um quanto o outro possuem invejável acervo que compõe um panorama da história da nossa cidade.
Dadinho escreve memórias e possui diversos registros históricos, fotos, diários e livros. Além de possuí-los, sabe também (e tão bem) interpreta-los pelo valor que possuem. Isso o torna um detentor do conhecimento, um arconte legítimo de nossa memória local. Francisco é fotografo e possui, além das imagens de uma Monlevade que passou, também tem em sua propriedade, um vasto arquivo, composto, sobretudo, por exemplares de jornais, revistas, livros e demais impressos publicados na cidade ao longo de trinta anos pelo menos.
Essa análise, a “grossíssimo modo”, vem em forma da divulgação do trabalho voluntário desses homens, que pesquisam, registram, arquivam, protegem e interpretam a memória. Imagino Monlevade no futuro, com um centro de memória em pleno funcionamento, onde se poderá consultar as informações do passado. Passado que hoje é presente, diga-se de passagem. O acervo desse centro está sendo construído desde já.
Os guardiões da memória são tão importantes e necessários quanto os próprios registros. Com eles, os arquivos estão resguardados. E, por serem os responsáveis por esse material, eles têm o poder de avaliá-los, julgá-los, classifica-los. O parecer do arconte sobre a história e a memória torna-se fonte de conhecimento para o futuro.

[1] DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo. Uma impressão freudiana. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.p.7.

Memória X – Nosso patrimônio imaterial



Imagine se nossos saberes forem esquecidos? Os costumes de nossa gente, o modo como vivemos nossas histórias? Imagine se nunca mais lembrarmos daquela cantiga que nossa mãe, avós e tias sempre cantaram? Agora, imagine se começarmos a esquecer de nossas raízes. Lembre-se que raiz tem dois significados básicos: um, é o de sustento, aquilo que dá vida, equilíbio. O outro é o de origem, de nascimento, de surgimento. Os dois termos se complementam de alguma forma. Por isso, não podemos deixar que morram os costumes e tradições monlevadenses, patrimônios imateriais de nosso povo.
Essa riqueza não pode ser tocada, guardada num cofre, ou armazenada em potes de barro ou de ouro. Mas, nem por isso, deixa de ser uma preciosidade, digna de admiração e respeito. Essas belezas já estão incorporadas à cultura local e, talvez por isso, não sejam tão facilmente reconhecidas. Por exemplo, as canções do Congado, das Guardas de Marujo, as festas de Reis, a folia da Vaca Mineira, as festas religiosas de São Sebastião, Santa Rita e São José Operário, a coração de Maria em maio, as cantigas centenárias da Família Alcântara são algumas das riquezas culturais de João Monlevade.
Além disso, não se pode esquecer das histórias da cidade, como os da antiga Usina, por exemplo. Meu pai faleceu há um ano e dois meses. Com ele, morreram uma série de lembranças da antiga “Companhia”, como ele se referia à gigante ArcelorMittal. Perdi a chance de gravá-lo narrando sua forma de trabalhar como maçariqueiro nos idos de 1940, quando aos 15 anos de idade foi fichado como auxiliar de solda.
Ele tinha na memória, fatos da época. Sabia o nome e a função dos companheiros antigos, sabia como era a disposição da Usina, a localização exata dos escritórios, bem como o nome dos encarregados e pequenas histórias sobre eles. Morreu meu pai, morreram essas lembranças que não foram registradas.
Para que outras memórias não desapareçam, é necessário valorizá-las como patrimônio imaterial. Aquele que não pode ser tocado, guardado em caixas ou dependurado na parede. São vivencias e experiências de uma época, de uma vida que devem ser compartilhadas com a geração que virá. Somos assim: homens de memória e precisamos delas para sobreviver.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A alma encantadora das ruas

Memória IX – A alma encantadora das ruas

Tomo o título emprestado do grande cronista João do Rio, cujo livro homônimo a esta, revela histórias das ruas do Rio de Janeiro do século XIX. Assim, acredito que poderia haver algo semelhante por aqui. As ruas de Monlevade precisam ter suas memórias registradas, através de um livro, cartilha ou revista. Afinal, quem são as pessoas que nomeiam logradouros por onde passamos todos os dias? Qual é a história dessas pessoas que entraram para a história municipal como personagens célebres?
Isso não se trata nem de uma questão para o futuro, mas mesmo para o presente. Será que a maioria da população sabe quem foi Gomes Batista, Ricardo Leite, Geraldo Soares de Sá, Geraldo Miranda, Lucindo Caldeira, entre outros? E o que eles fizeram para nomear as ruas da cidade? Desculpe a ignorância, mas eu não sei.
Por favor, amigos, familiares ou pessoas mais informadas do que este colunista, não me entendam mal. Não se trata, aqui, de discutir os méritos desses, mas de prestar um serviço importante para a preservação da memória da cidade, incluindo, a divulgação da biografia deles junto à comunidade.
Isso, também evita, que ocorra a triste mudança de nomes, tão comuns em tempos de desvalorização da memória. Afinal, não faz o menor sentido uma rua ter seu nome trocado por outro, depois de anos sendo chamada assim. É interessante pensar a respeito. Imagine você, se a avenida Wilson Alvarenga trocasse de nome? Como ficariam as referências? Falando nisso, será que todo mundo sabe quem foi Wilson Alvarenga? Será que a geração mais nova sabe que ele nasceu em Barão de Cocais e foi o primeiro prefeito de João Monlevade, pouco depois da emancipação?
O amigo e professor Dadinho elaborou, na revista sobre os 30 anos do bairro República, um dossiê intitulado: “Conheça o Patrono de Sua Rua”, interessante registro sobre quem foram os presidentes, seus feitos e curiosidades dos homens que nomeiam as ruas do bairro. Vale a pena conhecer.
Não se deve esquecer quem foram os heróis de nossa história. É por essas e outras, que é importante que se faça o registro desses nomes, sua trajetória como homens, suas ações e projetos para que esses não se percam com o inevitável passar do tempo.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

DECLARAÇÃO DE VOTO

Este texto é de Frei Beto, que achei interessante e que nos força a reflexão. Acredito que esse seja mesmo o caminho!
Voto este ano, para presidente da República, no candidato decidido a implementar reformas estruturais tão prometidas e jamais efetivadas: agrária, tributária, política, judiciária. E que a previdenciária e a trabalhista não sejam um engodo para penalizar ainda mais os trabalhadores e aposentados e beneficiar grandes empresas.
Voto em quem se dispõe a revolucionar a saúde e a educação. É uma vergonha o sucateamento do SUS e do ensino público. De 190 milhões de brasileiros, apenas 30 milhões se agarram esperançosamente na boia de salvação dos planos privados de saúde. Os demais são tratados como cidadãos de segunda classe, abnegados penitentes de filas hospitalares, obrigados a adquirir remédios onerados por uma carga tributária de 39% em média.Segundo o MEC, há 4,1 milhões de brasileiros, entre 4 e 17 anos, fora da escola. Portanto, virtualmente dentro do crime. Nossos professores são mal remunerados, a inclusão digital dos alunos é um penoso caminho a ser percorrido, o turno curricular de 4 horas diárias é o verniz que encobre a nação de semianalfabetos.Voto no candidato disposto ao controle rigoroso de emissão de gás carbônico das indústrias, dos pastos e das áreas de preservação ambiental, como a Amazônia. Não se pode permitir que o agronegócio derrube a floresta, contamine os rios e utilize mão de obra desprotegida da legislação trabalhista ou em regime de escravidão.
Voto em quem se comprometer a superar o caráter compensatório do Bolsa-Família e resgatar o emancipatório do Fome Zero, abrindo a porta de saída para as famílias que sobrevivem à custa do governo, de modo que possam gerar a própria renda.Voto no candidato disposto a mudar a atual política econômica que, em 2008, canalizou R$ 282 bilhões para amortizar dívidas interna e externa e apenas R$ 44,5 bilhões para a saúde. Em termos percentuais, foram 30% do orçamento destinados ao mercado financeiro e apenas 5% para a saúde, 3% à educação, 12% a toda a área social.
Voto no candidato contrário à autonomia do Banco Central, pois a economia não é uma instância divorciada da política e do social. Voto pela redução dos juros, a desoneração da cesta básica e dos medicamentos, o aumento real do salário mínimo, a redução da jornada semanal de trabalho para 40 horas.
Voto na legalização e preservação das áreas indígenas, de quilombolas e ribeirinhos, no diálogo permanente com os movimentos sociais e repudio qualquer tentativa de criminalizá-los, nas iniciativas de economia solidária e comércio justo, na definição constitucional do limite máximo de propriedade rural.
Voto no candidato convicto de que urge reduzir as tarifas de energia destinada ao consumo familiar e de uso de telefonia móvel. Disposto a valorizar fontes alternativas de energia, como a solar, a eólica, a dos mares e lixões etc. E que seja contrário à construção de termoelétricas e hidrelétricas nocivas ao meio ambiente.Voto no candidato que priorize o transporte coletivo de qualidade, com preços acessíveis subsidiados; exija a identificação visível dos alimentos transgênicos oferecidos ao consumidor; impeça a participação e uso de crianças em peças publicitárias; e condene veementemente o trabalho infantil.
Voto no candidato decidido a instalar a Comissão da Verdade, de modo a abrir os arquivos das Forças Armadas concernentes ao período ditatorial e apurar os crimes cometidos em nome do Estado, bem como o paradeiro dos desaparecidos.
Voto em quem dê continuidade à atual política externa, de fortalecimento da soberania e independência do Brasil, diversificação de suas relações comerciais, apoio a todas as formas de integração latino-americana e caribenha sem a presença dos EUA; direito de o nosso país ter assento no Conselho de Segurança da ONU; de repúdio ao criminoso bloqueio dos EUA a Cuba e à instalação de bases militares estadunidenses na América Latina.
Voto, sobretudo, em quem apresentar um programa convincente de redução significativa da maior chaga do Brasil: a desigualdade social. Este o meu voto. Resta achar o candidato.

(Frei Betto, semana de 18 a 24/04/2010, vários jornais do Brasil)

Memória VIII – A Memória como cultura


A memória é um dos elementos culturais mais importantes de um povo. Saber preservar sua origem, conhecer sua história e transmiti-la a gerações futuras são elementos estruturais para o desenvolvimento e para a soberania. Enquanto patrimônio cultural, a memória reforça as bases do pensamento coletivo e torna-se referência para a comunidade local.
Em João Monlevade, a memória deve ser encarada sob esse viés: é um dos muitos aspectos que compõem a cultura municipal. Tanto que há, na cidade, um memorialismo, inclusive, bastante recente. Acontecimentos de apenas 20,25 anos atrás são vistos como elementos importantes da cidade. Exemplo? As fanfarras das escolas que abrilhantavam o Desfile de 7 de Setembro nas décadas de 70 e 80.
Por muito tempo, ficou um lacuna neste sentido, com a extinção das fanfarras da Escola Estadual Dr. Geraldo Parreiras, da Escola Estadual Louis Prisco de Braga e Escola Municipal Israel Pinheiro (Emip), entre outras. Muita gente sentiu o fim dessa atividade cultural e lamentava o vazio que ficava na avenida, quando as referidas escolas passavam. Saudosos dessa lacuna, professores empenharam-se para reerguer as fanfarras e, salvo engano, esse ano a Geraldo Parreiras deve desfilar na avenida com a sua.
Outro exemplo de que a memória é um aspecto importante da cultura local é a luta pela manutenção e ressurreição do Floresta Clube Henry Meyers (antigo Clube de Caça e Pesca). O referido clube quase foi extinto, coberto de dívidas e com sérios problemas estruturais, entre outros. Mas, em nome da lembrança do que ele foi um dia e pela representação que ele ocupa na memória do povo monlevadense, meio que através de um milagre, a chama da esperança de manter o Floresta Clube de pé nunca se apagou. Bingos, campanhas promocionais, atividades para recuperar associados, reformas nas casas da lagoa, feijoadas às quintas-feiras, entre outras ações trouxeram alento ao Clube que ainda resiste. No entanto, o que nunca o deixou cair, efetivamente, foi a saudade do passado ali vivido. E, em função disso, a vontade de não deixar que o espaço se acabe.
A memória do monlevadense é uma poderosa força e deve ser preservada, respeitada e trabalhada nas escolas. É preciso reconhecer que, sem ela, a cidade seria muito diferente do que é hoje. Não cabe julgar se estaria melhor ou pior. Mas, sem esse importante elemento cultural, certamente, João Monlevade não seria a mesma.